CRONISTAS: "DE VEZ EM QUANDO"

Fonseca e Sousa, em 18 de Maio de 2011

 

 

NOVAS AUTARQUIAS

Segundo dizem, uma das imposições da "troika" que veio a Portugal negociar as condições do empréstimo, será a redução das autarquias.

Convenhamos que não é um assunto fácil, sendo, de resto, mais confortável fugirmos do assunto, em termos públicos, evidentemente, em consonância com uma situação mais cómoda que não perturba e não engendra aborrecimentos. Mas, se essa asserção é verdadeira, também não é menos verdadeira a que aponta para a necessidade de todos tomarmos posição sobre os nossos assuntos, por forma a tornarmos a nossa democracia mais eficaz e mais real.

Feita esta advertência, partamos de um comentário publicado há dias no facebook pela nossa "princesa do alva" e glosado por alguns arganilenses, no sentido abrangente do termo.

E, do que lemos, reparámos que, embora com algumas nuances, algumas cautelas, todos são pela necessidade de se fazer alguma coisa, afirmando-se inclusivamente que as "pessoas" intervenientes têm que ter forçosamente os mesmos objectivos (zelar e lutar pelos interesses da sua terra), olhando em ...frente,...

Falou-se ainda em "capelinhas" e "capelonas", etc. etc.

Na verdade, este "trabalho" a nível nacional, implica muito esforço, que deveria ser de todos, muito estudo, algumas dores de cabeça, e, eventualmente, muitos aborrecimentos. É que o problema não é fácil.

Por um lado, poderá dizer-se, à partida, que, na senda das grandes reformas administrativas do século XIX – altura em que foi extinto o concelho de Côja – a nossa região poderá, eventualmente, ganhar com essa reforma. Através, como já foi dito, da poupança que advém do facto de nos tempos actuais haver muitas capelinhas que poderão estar a absorver muito mais dinheiro pelo facto de estarem dispersas, do que naquela outra situação de concentração, situação que poderia "poupar" dinheiro pela eficiência, que no caso oposto não existirá. Convenhamos que é uma ideia simpática, que tenta o melhor, não há dúvida nenhuma.

De facto, a união faz a força, sempre disse o povo português, e, neste caso, faria a força da racionalidade, da racionalização de meios e, porventura, da lógica de uma boa gestão.

Por outro lado, e vamo-nos deixar de meia tintas, a verdade é que na dispersão geográfica poderá existir alguma ineficiência por desconhecimento, por ausência daquilo que se chama o amor intrínseco ao torrão natal, enfim por distanciamento. É o argumento que costumamos utilizar quando se fala da centralização em Lisboa ou em Bruxelas e nos resultados que, por exemplo a nível da agricultura se têm obtido de algumas decisões tomadas nesses "gabinetes centralizados".

Outra forma possível de abordar o problema prende-se com o seguinte: para os cojenses, por exemplo, ou para os avoenses também, será que a extinção das suas sedes de concelho em 1853 e 1855 vieram beneficiar o desenvolvimento de toda a zona que fazia parte administrativa desses extintos concelhos? Poderemos dizer – nunca a outro título que não seja o da honestidade intelectual – que Côja, por exemplo, parece-nos que poderia ter avançado muito mais no desenvolvimento, quando cotejada com o que se tem verificado na sede do concelho. Efectivamente, os números e a realidade aí estão para confirmar o que se diz: atente-se no número de fogos construidos de há uns anos a esta parte numa e noutra vilas, no número de pessoas que está a aumentar numa e a diminuir na outra, nas infraestruturas que estão a ser construidas numa e noutra, etc. E se, por um lado, pensamos que ainda bem que tem havido algum desenvolvimento no nosso concelho, e nomeadamente na sua sede, diremos, por outro, que terá que se lamentar é não ter havido harmonia na qualidade e na quantidade a nível de todo o vasto terrítório. Poderão adiantar-me: para se fazer num lado não se poderá fazer no outro e a ter que se fazer que se faça nas capitais... Pois, mas, desta forma, aí mesmo surge outro argumento forte para que os que detêm essas capitais – e que, por via disso, delas não queiram abrir mão.

Outra vertente ainda é saber-se onde ficarão localizadas as sedes das novas autarquias. Onde ficarão as sedes administrativas dos novos concelhos e freguesias? No nosso caso, em Arganil, em Côja, em S. Martinho, em Pombeiro da Beira ou no Piódão? Em terras que até agora não o têm sido mas que, mercê da sua situação geográfica melhor servirão os intentos perseguidos? Ou, pelo contrário, nas sedes que já existem, bastando a extinção pura e simples de outras. Em termos de Câmaras Municipais da nossa região quais serão aquelas que estarão disposta a, de ânimo leve, deixarem-se extinguir!?

O grande problema, o problema de fundo, é sempre o mesmo: é o facto do país, o nosso país, não ter capacidade para gerar níveis económicos abrangentes e suficientes, mormente no momento que atravessamos. Porque se o tivesse, naturalmente que a dispersão não obstava a que o dinheiro chegasse a todos os lugares e lugarejos. Mas como nem em tempos de vacas gordas - se alguma vez isso existiu por terras lusas - isso aconteceu, fútil será raciocinarmos hoje com base nesse princípio.

Resta-nos, portanto, tentar resolver o problema com os meios de que dispomos e, acima de tudo, com muito bom senso, por forma a que se minimize o que está mal e se prossiga sempre na tentativa de beneficiar todos. E que as populações se pronunciem.

Mas com calma, com diálogo, com lucidez - e sempre sem quaisquer tabús.

O AUTOR

FONSECA E SOUSA

Fonseca e Sousa é o pseudónimo literário de Fernando Manuel Carvalho Castanheira, cojense radicado há mais de 30 anos em Beja. Advogado, utiliza este pseudónimo na sua actividade de cronista e de escritor. Juntou-se à equipa de aprincesadoalva.com em Maio do ano de 2006. Assina a crónica intitulada «De vez em quando». Segundo o autor, «(...) nestas coisas da nossa Terra, todos, mas todos, devemos colaborar, cada qual com o que pode. Torga disse que quem faz o que pode faz o que deve»